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II - Sacerdotisa

II - Sacerdotisa

A porta abriu-se para fora, deixando escapar vozes espessadas por bagaço e o tilintar de copos.

Entrou, iluminado por uma lâmpada fluorescente, calcando restos de insetos imprudentes.

Num relance praticado, avaliou a clientela: homens sós, sedentos, curvados sobre canecas de líquido âmbar, e duas ou três criaturas, tão ressequidas e plásticas — sob várias demãos de maquilhagem — que a sua fome vacilou.

— Colheita parca… — Murmurou entre dentes.

Tudo que precisava era de uma mulher. Uma forma onde fincar os dedos, um receptáculo onde se libertar.

Ao voltar-se para sair — decidido a tentar a sorte noutro lugar — reparou numa mesa recôndita.

Ondas de cabelo preto tombavam sobre pele recheada, emoldurando pestanas fartas e lábios tenros. Olhos ensombrados fitavam um leque de cartas trilhado entre dedos compridos.

Aproximou-se — mesmo que não lho comandasse, o corpo tê-lo-ia arrastado.

— Impossível que ninguém lhe tenha oferecido uma bebida.

Devagar, duas safiras levantaram-se para ele.

O bar silenciou-se enquanto o observava — impávida, peito a oscilar com a respiração, animando um fio de ouro lá pousado.

E ele, paralisado, com os ouvidos a pulsar, a própria carne a responder — uma angústia crescente, já no limiar da dor.

Até que a mulher pestanejou, quebrando a tensão, permitindo-lhe inspirar de novo.

— Não aceito o que chega de propósito velado.

Ele arrastou a cadeira livre — um ranger ensurdecedor entre a quietude sobrenatural — e sentou-se.

— Nada há de velado nos nossos propósitos.

Ao inclinar-se para a frente, ela deixou escapar algo do seu decote profundo. Uma chave dourada que se precipitou sobre as cartas, onde ficou suspensa pelo fio.

— Ou muito mais do que desejariam ver revelado.

Ele mal a ouviu, de olhos presos no objeto demasiado familiar, demasiado real para um pendente.

Foi o toque da mão quente que o despertou.

Com um gesto firme, a mulher guiou-o até sentir cartas longilíneas contra a sua palma.

— Como eu disse, não aceito nem dou nada sem saber.

Ele mediu-lhe o olhar, antes de cortar o baralho com uma gargalhada incerta.

Nas mãos dela, as cartas pareciam joias. Três foram lançadas, de face para baixo, uma ilustração daquela mesma chave dourada triplicada sobre a mesa.

Passou uma mão pela testa, alarmado ao sentir humidade, e clareou a garganta.

A primeira carta foi voltada — uma figura vermelha e maligna.

— No passado, o diabo. Manipulativo, obsessivo, destrutivo.

Apertou as mãos sobre o colo, fincando unhas contra a própria pele.

Acaso, nada mais…

Uma mão delicada estendeu-se sobre a segunda carta e, com um farfalhar, revelou um homem preso pelo pé.

— Presente, o enforcado. Consciência, consequência, impotência.

Um fervor trepou-lhe pela pele. As palavras eram demasiado certeiras para seu alívio.

Não significa nada.

É um engodo… um jogo.

Mas o olhar já deslizava para a terceira carta.

Para o seu futuro.

Não… não quero saber.

Moveu os pés, descolando-os do chão pegajoso, num instinto de fuga. A ânsia que procurara aliviar fora substituída por outra, incandescente no seu peito.

Eu não quero…

— Só mais uma carta… — A mão regressou à dele, os lábios carnudos sorriram, a chave pendulou entre os dois em lampejos de ouro. — …para o teu propósito.

A tensão explodiu dentro dele, ateada por aquele toque.

Os olhos saltaram da carta, para a mulher que via demasiado…

Para a chave maldita.

E um esgar rasgou-lhe o rosto, libertando um rugido.

— Eu não quero isto!

Levantou-se com violência.

Correu.

E ao embate da cadeira contra o chão, já a porta se fechava atrás dele.

II - Sacerdotisa | Tarot Literário, microcontos de terror

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