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III - Imperatriz

III - Imperatriz

Consciência regressou ao corpo. Olhos abriram-se. Luz fluorescente dançava em formas indistintas. Contra a pele, um frio inflexível.

Onde estou?

Tentou mover-se. O centro da gravidade mudara durante o sono, exigindo demasiado em troca de equilíbrio. O tronco tombou para o lado e uma mão disparou para prevenir o choque. O mundo era branco — despido e ofuscante. Havia uma moedeira no centro dela, revestida de um receio indefinido.

Tens de ir.

Não sabia onde, ou porquê. Apenas que o tempo escasseava.

Levantou os olhos, reconheceu o tom enferrujado do lavatório. Esticou dedos trémulos para se apoiar na louça. Mas a pele humedecida não oferecia atrito. A pega deslizou. O pulso chocou contra o chão, arrancando-lhe um gemido de dor. Puxou a manga para trás, devagar, expondo o padrão roxo-esverdeado da pele tensa.

Levanta-te!

Sobressaltou-se. Levou ambas as mãos ao azulejo e apoiou-se sobre os joelhos. Mas antes que se conseguisse levantar, ou rastejar, sequer — congelou.

Vem aí.

Preparou-se — sem saber para quê — cerrando os dentes. A dor surda transformou-se numa tensão que escalou e alastrou, até lhe transformar o ventre em rocha, apenas para a quebrar com uma agonia dilacerante. Trincou a língua — crente de que conteria a dor se silenciasse o lamento. Até que um ferro incandescente a atravessou, de baixo a cima.

Gritou — até o seu lábio rachar onde ainda mal se cicatrizara, pintando-lhe a boca de vermelho vivo.

Até o tormento finalmente se abater. E o corpo voltar a ser seu.

Pousou a testa contra a laje, deixando decalques rosados sobre a pedra gélida.

Tens de ir!

Com uma inspiração forçada, e mão como um escudo sobre o abdómen enrijecido, começou a arrastar-se. Um, dois, três movimentos secos levaram-na até à porta.

Mas a maçaneta girou em falso.

Arfou, limpou os dedos na roupa, trancou-os em volta da saliência metálica e girou-a de novo.

Em vão.

A porta estava trancada.

— Deixa-me sair!

Nenhuma resposta, exceto o murmúrio de uma televisão ao longe.

— Deixa-me… — Sentiu a tensão voltar, o corpo contrair-se sobre si mesmo. — Deixa-me sair!

Bateu os punhos contra a madeira e retraiu-se com um silvo de dor.

Mas aquele sofrimento era uma razia, e o que se seguiu, um tsunami. Uma lâmina de fogo, espinhos e vermelho trespassou-a — do âmago do seu ser a cada pedaço da sua carne.

Gritou de novo, a voz mais quebrada que a sua pele. Como se fosse pela garganta que nova vida lhe saísse.

Gritou até esvair ar, sangue e consciência.

Então, nada. Silêncio. Até —

Uma inspiração.

Um choro a ecoar entre paredes polidas.

Consciência regressou ao corpo. Contra a pele, calor e movimentos suaves.

Estás aqui.

Curvou-se para pegar no ser que estrebuchava contra a sua coxa. Abraçou-o, com delicadeza, receosa de que quebrasse.

— Olá…

Passou um canto de tecido pelo rosto contorcido, limpando-o. O choro abateu-se. Olhos virgens abriram-se — tingindo o mundo de verde. Ela pousou um beijo sobre a pele glabra.

— Olá, bebé…

Uma mão minúscula encontrou-lhe o dedo. Paz encontrou o todo do seu ser. Uma lágrima traçou o seu sorriso antes de cair sobre o cabelo dourado.

Só então viu.

O beijo ensanguentado que tatuara. O antebraço marmoreado sobreposto à pele imaculada.

O futuro.

Passos soaram fora da porta.

Braços apertaram-se em reflexo, extraindo uma lamúria do seu colo.

A porta abriu-se com um rangido.

Ela não gritou.

Segurou o corpo frágil contra o seu.

E cerrou os olhos.

Eu estou aqui contigo.

III - Imperatriz | Tarot Literário, microcontos de terror

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