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I - Mago

I - Mago

Hesitou antes de entrar, com passos reverentes.

Deixou os sentidos reconhecerem o espaço — silhuetas delineadas por luz de velas e o ar acre, perfumado pelo suor dos seus trabalhos.

Um murmúrio ríspido puxou-lhe os olhos para o centro da divisão. Lá, adivinhava-se uma mesa de madeira maciça pelos seus ângulos severos.

Sobre o tampo desalumiado, um vulto estremecia, insignificante.

Urgência insurgiu-se sobre ele, acelerando-lhe o pulso.

Está a chegar.

Aproximou-se. Arregaçou as mangas de algodão lasso e, ao pousar as mãos sobre a sua criação, sorriu.

Uma lamúria atravessou o espaço, sobre a canção infantil que emanava de um canto da sala — dissonante e repetitiva.

Ignorou-a. Havia demasiado a fazer e pouco tempo.

Quase nenhum.

Palpou a superfície de madeira e o garrote fino caiu com um som metálico. Sobre a mesa, a peça retraiu-se com violência, um instinto quase humano, e ele agarrou-a — dedos cravados em extremidades ainda tenras.

Não foi suficiente…

Suspirou e mergulhou a mão num recipiente, empunhando pasta suave e fresca. Mesmo vendo-a debater-se, ouvindo os soluços, não hesitou.

Enfiou-lhe a argila pela garganta abaixo — deixando matéria fundir-se com carne e fraqueza tornar-se vigor. Temeu que se engasgasse contra o seu punho.

Mas os gargalejos húmidos e desesperados abrandaram — sem aflorarem a asfixia — espasmos reduzidos a um tremor.

— Chiiiiiu… Estás tão perto.

Murmurou, acariciando-a, dedos percorrendo a pele rugosa antes de descerem para o tampo. Um objeto frio e duro roçou-lhe a pele.

Estranhou.

Elevou-o à luz das velas e reconheceu uma chave que nunca vira antes — que não era sua.

Ou será?

O brilho dourado, o peso do metal — o calor que parecia libertar — inebriantes.

Havia uma porta…

O olhar quis desviar-se, mas ele obrigou-o a ficar sobre a mesa.

Eu tenho de fazer isto!

Arremessou a chave, a queda abafada por uma pilha de brinquedos — em tempos macios e coloridos, agora relíquias encrustadas a cinzento.

Desta vez, quando a mão se baixou para a mesa, encontrou o cinzel — pequeno, gasto. Aguçado.

Tão pouco tempo…

Agarrou-o e esculpiu. A matéria estava no ponto, obediente e maleável sob lágrimas silenciosas.

Esculpiu — frenético, incansável — até linhas de transpiração lhe pautarem a pele e a melodia desarmónica cessar.

E foi quando viu vermelho que soube.

— Consegui.

Afastou-se.

Olhou.

Estudou a sua obra.

Uma dor fina reluziu no seu peito. Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto, benzendo o maçarico que empunhou.

— Agora és como eu.

O fervor crepitante cristalizou as feições da criação, pele reluzente transformada em cerâmica. No fim, aproximou o rosto do dela e soprou. Devagar.

Mas, nada.

Durante uma eternidade, nada.

Não… eu fiz tudo bem.

Eu…

Ar tornou-se cal nos pulmões dele quando olhos negros — outrora verdes — giraram para os seus.

Lábios pálidos repuxaram-se para cima, fissurando a pele em redor com um tinido.

Num estigma.

— Pai…?

Levou uma mão à boca, aprisionando o horror dentro de si.

Uma campainha cortou o silêncio.

Ela tinha chegado.

Viu a criança endireitar-se com movimentos rígidos. Fragmentados.

— Mãe.

A voz cristalina estalou — tal como tudo nela.

Viu-a procurar o canto. O azul violento da televisão banhava-lhe a mochila pequena.

Cerrou as pálpebras com força.

Cobriu-as com as mãos antes que fosse tarde demais — antes que os olhos mortos se voltassem para os seus.

E ficou à mercê da voz aguçada.

— …deixas-me ir?

I - Mago | Tarot Literário, microcontos de terror

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