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0 - Louco

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Onde estou?

O ar era tinta negra — espessa, opaca — ocluindo-lhe a visão. Batimentos rápidos e descompassados martelavam-lhe o esterno.

Deu um passo — estranhou a fragilidade do corpo, as pernas curtas, o ressalto das articulações — e o som reverberou contra paredes invisíveis.

Hesitou, de ouvidos aguçados, respiração sustida. Um novo passo replicou o ruído seco e familiar.

Estendeu as mãos através da escuridão e notou algo duro, esmagado entre os dedos e a palma.

Palpou-o — anel ovalado, cabo fino, formas angulares e assimétricas na extremidade. Uma chave. Demasiado grande para a sua mão.

Havia uma porta…

Inspirou. Lenha queimada, azedume e um receio inexplicável encheram-lhe o peito.

Agarrou no objeto metálico e avançou devagar. A roupa roçava-lhe o corpo, demasiado pequena, encrespada.

Ao semicerrar os olhos viu um ponto luminoso — pequeno ao perto ou imenso à distância? — e decidiu segui-lo.

Pé ante pé. Centímetro a centímetro. Silencioso — tão silencioso. Como se o menor som pudesse colapsar a realidade.

PÁRA!

A voz explodiu-lhe na mente — infantil, aterrorizada. Sentiu um arrepio percorrê-lo, apesar do calor excessivo da caldeira invisível, e obedeceu.

Mas o ponto luminoso transformara-se num retângulo dourado. Tinha de o alcançar.

Uma gota de suor frio escorreu-lhe pelas costas. Deu outro passo. O chão cedeu sob o pé. Percebeu — demasiado tarde.

Devia ter parado.

O ranger da madeira cortou o silêncio. O coração congelou-lhe no peito.

— Quem está aí?!

Passaram-se segundos. Minutos. Uma eternidade de expectativa dolorosa.

Os músculos enrijeceram, prendendo-o no lugar. Mas ele não podia ficar ali. Não ali…

Devagar — tão, tão devagar — deu outro passo.

— TU!

Estacou. Seguiu-se um compasso sádico de silêncio.

— Outra vez fora da cama?!

O estômago dele convulsivou, queimando-lhe a garganta com ácido. E ele tentou fugir — enquanto ouvia o andar pesado, o chiar doentio da maçaneta.

Mas as suas passadas eram demasiado pequenas.

A porta escancarou-se no instante em que passava, tingindo o corredor de vermelho.

E uma mão disparou pela abertura, agarrando-o pelo colarinho.

— Não!

Esbracejou, socou o membro maciço que o arrastava para dentro da sala fétida.

— NÃO!

Viu a segunda mão aproximar-se e soube — se hesitasse, estaria perdido.

Abocanhou-a, fincando os dentes na pele encardida até o sabor metálico lhe cobrir a língua. Até o líquido quente lhe escorrer pelo queixo.

Um rugido estrondeou.

Ele arrancou-se do aperto vicioso e correu, como se lambido por labaredas. Tropeçou. Levantou-se. E correu, esbaforido.

O retângulo dourado era uma porta. Era a porta.

Está trancada.

Não vou conseguir!

Apertou a mão em torno da chave, levou o corpo até ao limite. Mas a porta estava longe, os passos retumbantes cada vez mais próximos…

Não havia tempo — não podia parar.

Então, atirou-se para a esquerda.

Sentiu dedos coléricos roçarem-lhe o cabelo, o chão sumir-se sob os seus pés.

E caiu.

0 - Louco | Tarot Literário, microcontos de terror

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