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IV - Imperador

IV - Imperador

As barras resistiam — baças contra a escuridão. No canto, uma forma morta testemunhava. Os cliques da espingarda entrecortavam um murmúrio de respirações.

Enquanto os dedos trabalhavam, ele perscrutava para além das grades. A mente quietada — por ora.

— Água?

Viu-o sentar-se sobre o colchão — mais fino que o metal a sustentá-lo. Um último clique, e estendeu a garrafa.

O rapaz levou-a aos lábios ressequidos e bebeu menos do que precisava.

Olhou pela mira. A escuridão permanecia estática, a ameaça velada.

Um som incomum interrompeu-lhe a vigília. Afastou a arma, fitou o rapaz.

Curvado para a frente, cotovelos contra joelhos, esmiuçava algo entre os dedos. O som repetiu-se — um pigarrear contido.

— Não se… Não se ouve nada.

Endireitou-se e pousou a espingarda ao seu lado, sobre o colchão.

— Não.

Os olhos do rapaz varreram a jaula, mãos inquietas no colo.

— Por que é que nunca se ouve nada?

— Já sabes.

O cabelo oleoso brilhou com o abanar da cabeça.

— Sei?

Suspirou. Um fluxo brusco pelo nariz. Repetiu. Mais uma vez.

— Apenas ouve quem foi marcado.

O rosto que o fitou era desafio incarnado. Mocidade. Luxo de quem nunca viu. Nem sentiu.

Mostrou-lho. Outra vez. O braço mutilado — a pele retorcida sobre carne deformada.

O rapaz esticou dois dedos, e ele retraiu-se antes que lhe tocasse.

— Dorme.

Uma exclamação de desdém foi absorvida pelo negro espesso.

— Dorme.

Viu a expressão crispar-se. Mas o corpo obedeceu, estendendo-se.

A qualquer dia — qualquer momento — deixaria de o fazer.

Pegou na arma e retomou o ritual. Inspecionou-a, enquanto a explorava com os dedos, mente atenta à respiração que não se abatia, ao sono que não chegava.

Algo tilintou e os olhos do rapaz relampejaram — para a porta atrás dele, e de volta.

Insurgiu-se.

— Não! Tu viste o que aconteceu.

O corpo no canto permaneceu em silêncio, o cabelo longo tombado, enquanto o rapaz se levantava de um salto.

— Ordenaste que esquecesse.

Ergueu-se ele, então, mas a estatura deixara de ser vantagem.

— Sabes o que aconteceu.

O rapaz abanou a cabeça com violência.

— Aqui, a tua voz. Lá fora, silêncio. Aqui, o teu império. Lá fora, liberdade.

— Morte.

— Aqui, contigo.

Um clarão dourado chamou-lhe a atenção: uma forma longa, assimétrica, projetada da mão do rapaz — brandida cada vez mais perto do seu peito.

Só ao ouvir o novo clique se apercebeu de que destravara a espingarda — tantos anos fizera dela parte de si.

E entre a gargalhada quebrada do rapaz, ouviu um rosnar tão baixo que podia ser ilusão.

— Sai da frente!

A voz alarmou-o. Reagiu — cano de metal esmagado contra a garganta do próprio filho.

— Cala-te.

— Sai da frente!

Foi projetado contra a grade, ouviu-se o estalo de costelas a quebrar. Atravessou-o uma dor quente e doentia.

E o rosnar regressou, mesmo ao seu lado.

Incapaz de ganhar fôlego, assistiu à batalha: chave de ouro contra fechadura enferrujada. Viu a última prevalecer.

Riu-se, acídico e húmido, e decaiu num acesso de tosse.

Foi a vez do rapaz se atirar contra o metal.

A jaula estremeceu, com um trovão. Viu-o dar dois passos para trás — pé apoiado no alçapão dourado, corpo armado para a nova investida.

— Não!

Um estrondo. A porta estatelou-se contra o chão. O rapaz correu para fora — viu-o ser engolido pelo negrume.

Corpo putrefacto esquecido no canto.

Chave dourada esquecida no chão.

Um momento de silêncio.

Depois — o rugido.

Faminto. Selvagem.

E, quando as mandíbulas enfim o encontraram —

Vermelho.

IV - Imperador | Tarot Literário, microcontos de terror

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