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XV - Diabo

XV - Diabo

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Caminhava ao longo de uma ruela interminável. Com cada passo, as paredes aproximavam-se dos seus cotovelos, o ar tornava-se mais denso e acídico. A luz escassa reduzia as portas a esquadrias azuladas num mundo longilíneo. Ergueu a palma à altura dos olhos para ler o número que lá garatujara.

Cinquenta e seis.

Uma guinada atravessou-lhe os ombros, atraindo a mão suspensa. Firmou as pontas dos dedos contra uma omoplata, demasiado próxima da pele, e pressionou tanto quanto a sua sensibilidade desbastada lhe permitia. Pouco a pouco, a dor reduziu-se àquele peso que se vinha a depositar sobre si nos últimos oito dias — desde que o pouco dinheiro com que saíra de casa se havia esgotado.

Agora, emaciado e a horas de ser expulso do quarto decrépito que arrendara, via-se forçado a seguir a dica de um conhecido cuja índole era, no máximo, duvidosa.

Observou a parede onde os números pares se sucediam, cada vez menos discerníveis.

Cinquenta, cinquenta e dois.

Um ruído abrupto fê-lo parar. Semicerrou os olhos e procurou a origem do sibilo irado ao nível da sua cintura. A forma negra saltou para o chão, de cauda em riste, dois discos alaranjados trancados nele, enquanto o silvo se transformava num rosnado gutural.

Sai-me da frente.

Pontapeou o ar perto do gato, que soltou um último guincho antes de correr no sentido oposto, em direção a uma passagem iluminada de dourado. Assaltado por uma nova guinada, largou o objeto que arrancara do bolso sem se aperceber e levou a mão ao outro ombro. O peso parecia-lhe pior que nunca.

Vamos despachar isto.

Encontrou a porta que procurava, um buraco negro retangular identificado pelos dois dígitos de ferro cravados para a sua esquerda. Bateu com os nós dos dedos contra a madeira velha. Ao fim de momentos, ponderou repetir o gesto, mas deteve-se ao ouvir passos leves. Após o rodar de chave em fechadura, uma lista encarnada cortou a penumbra. Mesmo em contraluz, viu o rosto que apareceu do outro lado, sulcado e tão carregado de maquilhagem que se parecia com a fachada, onde a tinta se lascava, fruto dos danos impiedosos do tempo.

— Preferência?

A voz feminina soava rouca pelo que deveriam ser décadas de tabaco e talhada por uma infância passada em algum país do leste europeu.

— O Ateu disse-me que está à procura de mão de obra.

A porta abriu-se para trás, desobstruindo um corredor de espelhos iluminado por uma única lâmpada vermelha, e a mulher avançou. Tão ou mais alta que ele, apesar dos sapatos rasos, exibia a angularidade do corpo através do tecido transluzente que a cobria do pescoço aos tornozelos. Começou a contorná-lo devagar, olhos claros medindo-o de cima a baixo, antes de lhe pegar nas mãos e fitar as palmas, onde o “56” já se esbatia com a humidade.

— Trinta por cliente.

Ele fitou-a em silêncio, enquanto uma bola de asco lhe trepava pela garganta. Sem palavra, voltou-se na mesma direção que o gato seguira e partiu ruela fora.

Aquele filho da puta!

De que estavas à espera?

Não disto.

Acelerou o passo.

Às dez da noite, nas traseiras do “Malparado”, sabias para o que vinhas.

Não isto…

Se não pagas até amanhã, ficas na rua. Sem nada.

Vacilou. Com um relance sobre o ombro descaído viu o umbral ainda iluminado de vermelho.

A trinta euros cada, não será preciso muito.

Abanou a cabeça e os olhos desviaram-se para a passagem dourada que notara antes.

Duas pagam o quarto, com a terceira compras comida.

Voltou-se com esforço, como se o seu centro de gravidade se deslocasse, e retrocedeu um passo.

E se forem homens?

Hesitou.

Fazes o que for preciso agora, levas o que quiseres mais tarde.

Reticente, retomou a marcha de regresso.

Três.

Apenas três.

Depois nunca mais.

Entrou para o corredor espelhado. A porta fechou-se atrás dele. Deu um passo em frente e estacou. Lentamente, girou o corpo, e enfrentou o seu reflexo.

Conseguia, enfim, ver o que pesava sobre os ombros: uma versão de si mesmo, livre de fome, medo e escrúpulos.

Bela.

Aterrorizadora.

Monstruosa.

Curvando-se para a frente, a criatura sorriu.

E ele sorriu de volta.

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