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XVI - Torre

XVI - Torre

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O choque demorava a dissipar-se.

A queda súbita culminara numa quietude perturbadora, o impacto e o abraço da água gelada que esperara nunca se haviam concretizado. Agora, era a inesperada ausência de estímulos que o encarcerava naquele tortuoso estado de alerta.

Onde…?

Varreu a escuridão com os olhos, à procura de algum raio de luz. Tateou o negrume em seu redor, até sentir pedra polida. Estava rodeado dela, em todos as direções, exceto em frente.

Está morna — estranhou, esfregando as pontas dos dedos.

Deu um passo, cauteloso, depois outro, e outro, até a biqueira do sapato ser travada por algo sólido e um baque seco irromper pelo silêncio perverso. Sondou com o pé.

Escadas.

De braços e dedos estendidos conseguia sentir ambas as paredes que o ladeavam. Privado da sua visão, usou-as como guia e firmou um pé sobre o primeiro degrau.

Quando pousou o segundo, a superfície cedeu uns milímetros. Inspirou com força, procurando estabilizar-se, e detetou um cheiro quente e vagamente familiar que, concluiu após trepar mais dois ou três níveis triangulares, era incapaz de definir. O corpo dele parecia inclinar-se uns milímetros para a esquerda.

Escadas em caracol… quão longe?

Esticou o pescoço e semicerrou os olhos, mas a escuridão revelou-se tão ou mais impérvia que antes. Um tremor incaracterístico percorreu-o, do couro cabeludo às plantas dos pés.

Em vez de se extinguir aí, porém, foi como se difundisse pela superfície que lhe servia de apoio, espoletando uma ilusão de desabamento que o instigou a avançar ao longo de uma distância incalculável.

Foi um gemido que o fez travar, questionando-se porque gemera, ao mesmo tempo que o som se repetia algures perto do seu tornozelo.

Com a ponta do pé, sentiu a superfície irregular e totalmente vazia do degrau. Depois subiu para o seguinte e fez o mesmo.

— Ãaaaa…

Um lamento de criança — de um rapaz, a julgar pelo timbre — soou entre as paredes invisíveis, no instante em que algo se deslocou sob os seus pés. Tão abrupto e violento foi o movimento que temeu tombar pela escadaria.

Então, lançou-se para a frente, aterrando com as mãos uns quantos níveis acima: uma delas sobre um objeto delgado e duro, recoberto por material mole, enquanto os dedos da outra mergulhavam num buraco quente e molhado.

Serviu-lhe o instinto de sobrevivência, exigindo-lhe que recolhesse a mão imediatamente antes de o buraco se cerrar com portões de esmalte.

Num mundo em que a misericórdia retivesse o seu domínio, continuaria a ser-lhe negado o sentido da visão.

Do topo da escadaria, porém, o mais leve e delicado feixe luminoso permitia-lhe ver a boca que lhe teria decepado os dedos se não os tivesse retraído, o braço cadavérico em que ainda se apoiava e os olhos que o fitavam de volta, de íris escuras e famintas — uma réplica dos seus, quatro décadas antes.

Como quem contém a primeira investida do vómito, engoliu em seco e esmagou as pálpebras, apenas para as escancarar quando um ímpeto alheio ameaçou desequilibrá-lo.

O grito soltou-se dele e de centenas de outras bocas, em uníssono. Incapaz de se deter, levantou o olhar para a escadaria e a visão infernal secou-lhe a garganta.

Foi o único que se silenciou.

Os corpos que haviam sido fundidos numa longa e esguia escadaria continuaram o seu pranto, a sua pele esbranquiçada como mármore e rostos voltados para aquele cujo destino ainda não se selara. Ele implorou que os seus olhos se cegassem, enquanto pousavam em cada carcaça humana, permitindo-lhe reconhecê-la e localizá-la na sua história de vida.

Mais de metade eram versões de si mesmo — vorazes e monstruosas. As restantes eram pessoas com quem se cruzara, que destruíra, que criara…

Cinco dedos, feitos de osso e lixa, trancaram-se em torno do pulso dele, puxando-o para baixo. O queixo embateu num joelho, arrancando-lhe uma lágrima e um palavrão inaudível sob o pranto que ricocheteava entre as paredes.

Estouvado, apoiou a mão direita numa parte do degrau que não era orgânica — uma porção que parecia feita de chaves fundidas — e içou-se para fora do aperto.

Trepou a escadaria, com cuidado para se apoiar apenas nos pontos de metal dourado, enquanto evitava os olhos que o seguiam, as línguas que lambiam a sua sombra, os membros que ocasionalmente se projetavam na direção dos seus tornozelos.

Trepou, com os pulmões em brasa, em direção à luz branca — Por Deus, que seja a saída… —, cada vez mais cruel naquilo que revelava.

Até o ponteado dourado se tornar demasiado rareado para lhe servir de caminho.

E com a saída tão perto…

Começou por pisar apenas coxas e costas, onde, com certeza, causaria menos dano. Porém, no seu desespero por escapar àquele bramado ensurdecedor que se acumulava em seu redor, depressa deixou de olhar para onde punha os pés.

E correu.

Correu, calcando todos no seu caminho — homens e mulheres, adultos e crianças, vilões e inocentes — deixando um rasto vermelho para trás. Correu até conseguir ver a maçaneta por onde a luz escapava, ao fundo de um último patamar: um rapaz, deitado em posição fetal, com a pele tingida de roxo e uma daquelas chaves douradas esmagada contra o peito.

Devagar, trepou os últimos degraus.

Lembrava-se de ser aquele miúdo. De sofrer cada uma daquelas marcas.

Ainda as conseguia sentir…

Fitou a maçaneta, a porta recortada de branco.

Para sair teria de passar por cima dele.

Levantou o pé.

O que é mais uma entre tantas?

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