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XIV - Temperança

XIV - Temperança

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Os dedos tremiam-lhe, arriscando verter chá fervente sobre a própria pele. Tentou abstrair-se do tilintar do bule que cortava o silêncio bafiento estendido pelas divisões vazias.

Os olhos escuros do pai levantaram-se para os dela, advertindo-a. Apressou-se a servi-lo primeiro, cuidadosa para nada derramar, antes de fazer o mesmo por si. Susteve a respiração, ao vê-lo sorver o líquido âmbar de um só gole, deslocando a maçã de Adão proeminente em direção à chave dourada que trazia sempre em volta do pescoço.

Após terminar, o pai quedou-se, a fitar o fundo da chávena, como que se questionando quanto ao destino do chá que vira ser servido.

Era a oportunidade por que esperava.

Soltou logo a pega do bule, agora vazio, agarrou na própria chávena e deitou metade do seu conteúdo fumegante para dentro da dele.

O movimento impetuoso fez com que o líquido galgasse a borda de louça e lhe tombasse sobre os dedos. A dor foi excruciante. Demasiados encontros da pele com os seus dentes, pequenos e aguçados, tinham deixado as terminações nervosas desprotegidas. Contudo, não pestanejou. Não podia arriscar perder a sua recompensa:

— Cuidas tão bem de mim. — Disse o pai. E lançou-lhe o olhar mais carinhoso que ela alguma vez recebera.

Anos passaram, e os olhos escuros já pertenciam a outro.

Adormecidos, direcionados para um ecrã de televisão demasiado brilhante e barulhento. Enquanto os dela não se desviam dele, à espera da oportunidade que já adivinha e que chegou quando ele descruzou as pernas e alisou o cobertor sobre si mesmo, esboçando o mais breve esgar.

Não hesitou. Com mãos enrijecidas pelo frio, agarrou no próprio cobertor e rasgou-o a meio, para pousar uma metade sobre as coxas dele.

E aguardou até a receber.

Aquela mesma recompensa. A prova do valor que lhe era atribuído. Quase tão efémera quanto o arrepio que percorrera o corpo dele.

Inestimável.

Por ela, dividiu a sua comida. O seu tempo. Abdicou de bens, direitos, princípios. De tudo o que tinha, em prol daqueles momentos em que via confirmado o seu maior desejo: de ser alguém.

Desejada. Merecedora de amor. Alguém a ser resgatada e levada para longe, para um mundo onde seria reconhecida.

Eventualmente, porém, as suas dádivas tornaram-se insuficientes. O espaço que ocupava, excessivo. E ela tentou de tudo. Dobrou-se e contorceu-se. Mas apenas recebia em troca rostos cerrados e abanos de cabeça.

Era o fim. Que mais poderia ser, se nada mais tinha para dar? Apenas lhe restava desvanecer. Levada com o silêncio, apenas outra sombra pelos cantos.

Esvaíra-se toda a sua esperança, quando descobriu, ao abraçar-se sob mais um olhar gélido, que pequenos sulcos circundavam os seus braços. Olhou-os, estupefacta. Estudou-os com curiosidade. O quão perfeitos e simétricos eram, aqueles pontos avermelhados que nunca vira antes, e puxou a pele por uma das extremidades.

Um ruído áspero fê-la pensar nos seus dias de escola, em folhas de papel a serem rasgadas de cadernos imaculados. Viu um pedaço de carne soltar-se de si. Um corte perfeito, pela linha.

Fitou-o, pousou-o na palma, maravilhada, perguntando-se o que deveria fazer com ele.

O homem com olhos escuros não o parecia querer.

Mas, assim que ela se livrou do artefacto, atirando-o para trás de si, ele agarrou-a pela cinta e, ignorando o riacho vermelho-vivo que se estendia até ao cotovelo dela, puxou-a contra o seu peito.

Fê-lo com um calor sem precedente no olhar.

Ela depressa descobriu que estava coberta daqueles pequenos sulcos — linhas pontilhadas que faziam de si um céu coberto de constelações.

Regozijou. Enfim segura de que o seu amor seria eterno.

Pois sempre que ele lhe curvasse o lábio em desagrado ou se desviasse um milímetro que fosse, bastar-lhe-ia destacar uma parte de si, para que tudo se restaurasse.

Assim o fez. Durante anos.

Assim foi desaparecendo. Cortando pedaço a pedaço, pelo picotado, até se tornar irreconhecível para aqueles que nunca se dignaram a olhar.

Um dia descobriu que lhe restava uma última linha. E ela, já reduzida a mãos e uma boca silenciosa.

Mas não se deteve. Nem sequer hesitou. Agarrou na borda, com a pouca força que lhe restava, e puxou.

Um último corte, e finalmente caberia no bolso dele.

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