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XII - Enforcado

XII - Enforcado

O alarme tocou. Deixou o zunido percorrê-lo, sem desviar os olhos do céu laranja-avermelhado. Era a última vez que o ouvia.

No teto, um outro ruído, elétrico e agudo, intensificou-se, até uma lâmpada se desfazer em navalhas de vidro. Lá fora, a estrela febril, no seu lânguido eclipse ao longo do horizonte, tornou-se na única fonte de luz disponível.

Com um tinido nos ouvidos, fechou a janela devagar. Era a última vez que o fazia.

Restava apenas quietude no interior do apartamento, silenciado o motor do frigorífico. Era indiferente. A comida que apodrecesse, já não havia ninguém para a comer.

Saiu para a rua, com passos de velcro. Bateu a porta e mergulhou na aura escarlate do dia moribundo. Era a última vez que o sentia.

Avançou, controlando o ressalto de calcanhar contra a calçada. Percorria os dentes frios e afiados da chave com o polegar. Aquela que não usara até então e que sempre lhe pesara, tão inerte, no bolso.

Uma família passou rente a si, e os risos despreocupados roçaram-no como lixa sobre pele escaldada. Acelerou.

A ponte aguardava, ao longe, tão metálica quanto o sabor da sua miséria.

Arrastou-se até lá e sentou-se na lateral, num pedaço de pedra iluminado pela réstia do dia. A ver as cores desaparecerem, enquanto a escuridão se apoderava de tudo.

Expirou, curvando-se sobre o rio, e deixou-se cair para a frente. Um último ato de cobardia, uma última subordinação à gravidade.

O fim puxou-o para baixo, através do ar frio e húmido.

Por um instante, paz.

Até que houve um baque seco. Depois uma série de estalidos e, por fim, um assobio leve.

A queda fora travada. A paz, usurpada. A dor, essa sim, absoluta, faminta, tragava-lhe a perna com dezenas de presas de fogo.

Ficara preso na escarpa, cabeça pendente sobre as águas. Saliva vermelho-vivo escorria da mandíbula de galhos que se enterrara na sua carne. Escorria-lhe quente pelo peito, pelo pescoço. Tingia-lhe a visão.

Vermelho. Sempre vermelho…

Mesmo na sua agonia, quedou-se, imóvel. Não gemeu. Aguentou. A sua consciência uma corrente ininterrupta, como a que cursava dezenas de metros abaixo de si.

Aguentou porque era a última vez que o fazia.

A noite fluiu infinita como o rio invisível por baixo de si. A dor violenta como o rio por baixo de si. O fim inalcançável.

Até que algo ganhou vida diretamente abaixo de si. Movimento. Relevo. Ângulos e linhas de água.

Olhou em frente. E viu tudo vermelho.

Os braços pendentes e intumescidos não se mexeram. Mas ainda conseguia sentir a chave, cravada na sua palma — uma relíquia de cada oportunidade perdida.

Desperdiçada.

O tempo corria como as águas turbulentas que o aguardavam. Pestanejou e viu laranja. Uma vez mais, e viu o dourado de uma estrela incandescente.

Contemplava, enfim, a beleza do nascer do sol quando a chave ardeu, fulminante, na sua mão.

Guinchou e esbracejou, tentando, em vão, rejeitá-la.

Um galho quebrou-se e o novo estalido reverberou entre as encostas.

Foi invadido por uma urgência que não conhecia há eternidades, uma voracidade sem fim, no momento em que o suporte cedeu.

E, ao cair, inspirou fundo.

Foi a última vez.

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