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XI - Justiça

XI - Justiça

O calor acumulava-se entre as paredes, ondas refletidas em pedra polida. Não fosse pelas mãos invisíveis que o carregavam, ter-se-ia ficado ali, esgotado de oxigénio.

Uma porta de madeira maciça, enegrecida nos detalhes em relevo, abriu-se para trás. O fumo que se acumulava sob o teto foi o primeiro a atravessá-la, um riacho cinzento impérvio à gravidade.

Depois ele.

Olhou em redor. Linhas de cadeiras vazias enfrentavam um pódio de mármore branco.

Foi depositado na fila dianteira.

Esperou.

Por tempo indeterminado, tudo o que ouviu foi um crepitar seco, de origem desconhecida. Até que surgiram as vozes.

Uma a uma, ouviu-as chegar, murmurando entre si, somando-se, mais e mais, levando sussurro a ruído, culminando numa pressão que se insinuava, dolorosa, contra os seus tímpanos.

Cerrou os olhos, para não ver os recém-chegados.

Ainda assim, absteve-se de cobrir os ouvidos, tapando antes o nariz. De nada lhe serviu. Pó cobria-lhe a língua, forrava-lhe a traqueia, ardia-lhe nos pulmões.

Desejou ter um copo de água. Rezou por um.

Na sua mesa havia apenas um martelo de madeira e, preso sob ele, um objeto dourado, dentado e esguio.

Foi um súbito silêncio que redirecionou a sua atenção para o pódio.

Inspirou com tanta brusquidão que logo tossiu um punhado de pasta negra.

Uma mulher jovem ocupara o lugar de destaque.

Teria sido bela em tempos, feições delicadas e olhos claros. Metade dela ainda era — a esquerda.

O lado direito fora reduzido a osso, recoberto por réstias de pele retorcida e carbonizada, uma escavação profunda revelada pela ausência da pálpebra.

Quando abriu a boca, foi o mesmo fumo denso que se soltou, serpenteando de entre os lábios repuxados em direção ao manto negro que já obstruía o estuque por cima deles.

Só então saíram palavras discerníveis.

— Começou enquanto dormia. — Ele encolheu-se ao reconhecer alguma nota na voz ressequida. — Foi o cheiro que me despertou. Não soube a gravidade até sair. Os espelhos foram os primeiros a derreter.

Levantou-se, querendo acercar-se, perguntar de onde a conhecia. Mas a mulher já se sumira e, no seu lugar, havia uma criança.

As pernas cederam sob si, devolvendo-o à cadeira com um estrondo que se sobrepôs ao estalido incessante.

A menina não poderia ter mais de cinco ou seis anos. Cabelo louro caía-lhe assimétrico em torno do rosto, tingido de cinza e encrespado nas pontas. Dois olhos, negros como carvão, olhavam cegamente, sobre lábios rosados. E no pescoço…

Contorceu-se, querendo afastar os olhos. Foi incapaz de o fazer, como se um gesto incorpóreo o forçasse a olhar.

No pescoço, um orifício rodeado de plástico branco, rígido, projetado para a frente. Quando os lábios se abriram, foi uma música infantil mal sintonizada que preencheu a sala.

Cobriu os ouvidos. Porém, as mãos não ofereciam qualquer isolamento e a melodia familiar atravessou-o como um lobótomo.

A menina encaixou um, dois, três pequenos dedos no cilindro, obstruindo-o. A música cessou. Então, sim, falou, numa voz tão irregular e decepada quanto as suas madeixas.

— Começou enquanto brincava. O chão ficou morno. Depois ferveu. Não soube fugir. As maçanetas foram as primeiras a derreter.

Ele tapou os olhos, sem deixar de a ver.

Tentou inspirar pela boca, aliviar-se do odor acre que o envolvia. Engoliu tanta poeira que se curvou e vomitou borras negras sobre o chão.

À crepitação juntou-se um som agitado, como se o ar se movesse em sacadas que não se faziam sentir contra a pele cálida.

Olhou em frente e espasmou.

A criança desaparecera.

No seu lugar, uma forma humanóide fitava a sala.

Sem olhos. Sem pele. Apenas uma forma com quatro membros, um deles truncado — ossos afilados projetando-se da massa calcinada.

Sem voz. Ou vida.

Apenas aquela presença imóvel que ele conhecia demasiado bem, cuja acusação assentou sobre si — mais uma camada de borralho.

Tentou fugir.

As laterais do banco ergueram-se até ao nível do seu tronco.

Tentou gritar.

Apenas poluiu mais o ar.

Tentou agarrar no martelo, ditar a sua sentença, condenar-se a uma eternidade de agonia.

Mas o objeto apenas estalou, lambido por labaredas em forma de dedos.

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