Como eu te odeio.
Levámos anos a chegar aqui. Decénios.
E agora, odeio-te.
A displicência com que entras no meu quarto, a insolência com que tocas na minha pele, a prepotência com que quebras a minha paz — tão pouca que me resta.
Que mal te fiz eu, insignificante nesta existência, sem que em nada te perturbasse?
Porque me roubas o ténue alívio que a noite me traz, o efémero prazer de nada ser por tão ínfimo número de horas? Porque me arrastas de volta para este mundo, onde o ar se move em adagas e as cobertas pesam como laje?
Porque quebras a minha ilusão de que seria hoje?
Implorei que fosse.
A minha liberdade, um bater de asas de noitibó. O meu reino, uma sucessão interminável de luas novas, ponteada por algum vislumbre de uma minguante ou outra crescente. Este meu direito, que tu negas com cada madrugada, esticando dedos de alfinete que me perfuram as pálpebras.
Sua cobarde. Em toda a tua crueza, sedenta de me infligir tamanha dor, nem te rebaixas ao meu nível para me moer. Cinges-te a evocar-me de volta a este corpo enfermiço que em nada mais me serve, apenas me encarcera. Esta dama de ferro em que a minha alma jaz, condenada a pagar por todos os crimes a que me sujeitei.
Negas-me a inconsciência e aterras-me neste esqueleto de estilhaços, onde cada inspiração esfarrapa mais e mais os sacos flácidos que forram o meu peito, e cada gole arrasta metal pela garganta abaixo, despertando uma míngua que jamais se sacia.
Perante tamanho e infindável tormento, armo-me de apenas um conforto: de que não mais me ouvirás falar. Cessou o teu dote de ventriloquia, ainda que ela de novo me visite.
Se lhe tornar a ouvir os passos, manterei as pálpebras bem fechadas. Não vos deixarei entrar, a ti ou a ela. Ficar-me-ei bem hirta no meu leito, ostentosamente terminal, abatendo qualquer expectativa de diálogo ou apelo. Ficar-me-ei em silêncio, compelindo-a a fazer o mesmo. E quando me encontrar de novo a sós contigo, farei por ignorar o eco de tudo o que ficou por dizer.
— Mãe, porque não lutas?
Já lutei, lutei durante tantos anos.
— Mãe, porque não vês o que há de tão belo?
Já vi. Há muito, porém, que as lentes da ingenuidade se turvaram.
— Mãe, porque não ficas, por mim?
Eu fiquei. Durante todo este tempo, fiquei. Que não me suplique por mais um sacrifício, por mais um minuto aqui. Que aceite.
Não, não quero ver as linhas nascer em torno dos olhos dela. Não, não quero segurar os meus futuros netos nos braços. Quero ser livre.
E sim, odeio-me por isso.
Por isso e por tanto mais. Por ter entrado, ficado, sofrido, voltado, engolido, metabolizado a ponto de o meu corpo se insurgir contra si mesmo. Por me ter deixado reduzir a isto. Por permitir que ela assistisse enquanto me reduzia a isto.
Mas és tu, tu que em tempos refletiste dourada no cabelo da minha filha, tu que agora te quebras, vermelha, na linha do horizonte, tu que me trazes de volta dia, após dia, após dia, és tu quem eu mais odeio.
Resta-me, então, esta última esperança, sua estrela maldita: de que uma de nós se apague e eu nunca torne a sofrer o horror de um amanhecer.
Quem sabe, esta noite.
Sim, talvez esta…
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