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VIII - Força

VIII - Força

Nasce o sol. Dedos dourados acariciam o cobertor, o lençol, a pele dela. Pupilas, contraídas pela luz, fitam a outra almofada.

Vazia.

Suspira.

Passos morosos levam-na até ao quarto de banho. Passos resignados trazem-na de volta. Deixa-se abraçar por algodão — do pescoço aos pulsos, até aos tornozelos. Senta-se à penteadeira e contempla o conteúdo do porta-jóias — relíquias de uma vida tão cedo esgotada.

A luz da manhã ainda banha os pés da cama — há tempo para um sonho.

Afasta a chave de ouro e pega em brincos, gargantilha e anel de noivado.

Desliza os dedos pelo espelho. Memórias cristalinas cintilam. A lágrima que tomba completa o novo conjunto.

A hora acelera. Guarda o colar, prende o anel entre dois dedos e puxa. Não se move. Estabiliza-se, cotovelos firmes contra a madeira, e volta a puxar. Nem um milímetro.

Corre até ao lavatório, despertando uma dor surda na anca. Esfrega sabão na mão direita — com o rosto a queimar — uma e outra vez. Puxa de novo, e o anel sai como se fosse demasiado largo.

Ri-se, entre lágrimas, enquanto o devolve ao seu lugar.

Põe a sertã ao lume. Óleo estala sob ovos frescos. Gotículas pintalgam-lhe as mãos de fogo. Arregaça as mangas depressa — não vá queimar-se o vestido.

O padrão florido faz tandem com o da pele.

Ouve um tilintar de metal, o roçar de uma chave contra a fechadura. Endireita-se. Fecha a mão em torno de algo que não está lá. Desliga o lume, cobre os antebraços num gesto aprendido, e dirige-se à porta.

Quando ele entra, traz consigo o aroma de cerveja azeda e fumo de tabaco.

Sem uma palavra, beija-lhe a face e senta-se à mesa. Ela apressa-se a servi-lo — pratos carregados de sal e gordura, os favoritos — e ocupa uma cadeira.

Os olhos escuros mal se desviam da comida até terminar. Quando enfim pousam nela, semicerram-se, inquisidores.

— Como foi a noite?

Apesar de estranhar a pergunta, não hesita em responder.

— Terminei a bainha das tuas calças. Li um pouco, nada mais.

— Alguma visita?

— Não.

Ele inclina-se, mão esticada na direção dela, e prende-lhe uma madeixa atrás da orelha. Ela congela, trespassada por uma dor fina. Não precisa de ver — sabe já o erro que cometeu.

— Experimentava-os em frente ao espelho.

Ele fita-a, impávido. Ela sustém a respiração — aterrorizada de dizer a coisa errada, de inspirar da forma errada. Ainda assim, o terror repuxa-lhe o lábio num trejeito involuntário.

Um estouro. Uma cadeira embate contra o chão de pedra. Já a tem agarrada pelo pescoço, arrasta-a para trás.

Ao colidir com a parede, o crânio reverbera num baque seco. Pontos luminosos dançam-lhe pelas pálpebras cerradas.

Pensa em estrelas: noites quentes de verão passadas ao relento, cheiro a terra molhada, frescura da relva sob pés descalços.

— Achas que fazes de mim burro?!

Tenta inspirar. O ar não passa pelo aperto. Arde-lhe o peito.

Lembra-se do mar: desafios e minutos vitoriosos debaixo da água, toque frio das algas, odor iodado do sal, rebentar cíclico da maré.

— Responde-me!

Ele atira-se para a frente, esmagando-a contra a parede. Sem fôlego, sem voz, não tem como o fazer.

Imagina flores de primavera — prensadas entre folhas de papel vegetal. Um dia efémeras, tornadas eternas. Resistentes.

— Cabra do caralho!

O corpo dele afasta-se, de repente. Sem oposição, o dela colapsa sobre o azulejo, alívio fundido com agonia.

Tosse.

Chia.

Agarra-se ao peito até o sabor amargo desvanecer.

A casa está em silêncio. Ele saiu outra vez.

Ergue-se sobre os joelhos e rasteja até ao quarto. Alcança a caixa de madeira escondida atrás da penteadeira. Abre-a.

Pega na pistola, reconhece-lhe o peso — o frio metálico contra dedos trémulos.

Dá por si a pensar em travessões incrustados de zircónias. Abafa um soluço com o dorso da mão. Inspira fundo. Guarda a arma, com reverência.

Respira fundo.

E pensa em broches incrustados de rubis.

Afinal, o que seria de uma noiva adornada de ouro sem o seu noivo em vermelho?

VIII - A Força | Tarot Literário, microcontos de terror

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