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IX - Eremita

IX - Eremita

Não devia estar acordado. Talvez nem estivesse — era demasiado densa aquela escuridão para ser apenas noite. O quarto dorme, inspira e expira num sussurrar de paredes.

E ele ainda acordado.

Deveria ser um momento de paz, de silêncio. Aqueles pensamentos… O que faziam ali? Agora?

A cama dorme, aconchega-se num ciciar de lençóis.

E ele ainda desperto.

Pensamentos agitados como marés — lambem-lhe os pés, depois levam-no de arrasto.

É submerso, tragado pelo passado — povoado por demasiados espectros. Esgotado demais para resistir.

Vê-lhes não as caras, mas as mãos.

Há muito que aprendera: os mortos falam por gestos.

Roubados de voz, só lhes resta gesticular — dedos cadavéricos traçando sibilos no silêncio. Silvos condenatórios que o afastam ainda mais do seu sono.

Prepara-se para ir à cozinha, agitar garrafas em busca de um gole. Os músculos desobedecem, não concebem movimento.

O corpo está a dormir. Queda-se, animado apenas pelo sangue e pelo resvalo do ar — num murmúrio que, da sua clausura, lhe parece demasiado rápido.

Ainda assim, vê lâminas de luz trespassar as frinchas da janela. Lá fora, as ruas acendem-se para os que escolhem não dormir, quando tudo o que ele quer é adormecer.

Algo duro lhe pressiona a base do crânio, esquecido sob a almofada.

A chave. E ele incapaz de lhe chegar.

Ouve-se um estalido. Tenta virar-se. Em vão.

Abandonado. Traído por todos. Agora, até pelo corpo. Deixado ali, naquela mísera existência.

Só.

Imóvel.

Irrelevante.

Já não é algodão, mas antes raiva, que o abraça naquela interminável noite de verão, enquanto remói os nomes de todos os que o arrastaram até ali, como se nomeá-los invocasse uma troca: corpos gélidos aprisionados na sua cama — e ele libertado para a terra dos vivos. De regresso a onde pertence.

Há um murmúrio no ar. Tenta ver. De nada lhe serve.

A frustração é lava — espessa, intolerável. Escorre dele até ao soalho, que escalda e fumega.

Ele, ali — na impotência.

Ele, ali — na solidão.

Deitado na miséria perpetrada por todos os que lhe pisaram os dias.

Há um chiar ao lado da cama. Tenta arrancar-se do torpor. É tudo o que faz: tentar.

A raiva transmuta-se — ganha gosto de cobre. O coração acelera-lhe dentro de um corpo que já age como morto.

Geme — nada se ouve. Na borda da visão, surge uma forma oscilante. À direita, surge outra. E uma outra, mais à frente.

Estão em todo lado. Pela primeira vez, fora do delírio.

Dedos.

Apontam.

Acusam.

Espasma de terror, mas é só a alma que se contorce. O corpo recusa-se a reagir, por despeito.

Os dedos aproximam-se. Lentos. Encorajados pela sua vulnerabilidade. Transformam-se em garras. A milímetros. E ele, desenganado, já sabe.

O que querem.

Por que vieram.

Sabe a que ainda está por chegar — pequena, de pele imaculada como louça —, a mais aguçada de todas.

Vem pronta para o acariciar. Para o roubar de qualquer pretensão.

Vê-a flutuar, ao fundo da cama.

Sente o peso a assentar-se sobre as pernas.

Pensa na chave, ouro abandonado debaixo da almofada.

Quer implorar. Confessar. Redimir-se.

Mas nada lhe resta.

Senão aquele peso.

Cada vez mais próximo.

Mais familiar.

Mais insuportável.

Todas aquelas mãos.

Todos aqueles dedos.

E o despertador que não toca.

IX - Eremita | Tarot Literário, microcontos de terror

Conto publicado em Fábrica do Terror

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