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VII - Carro

VII - Carro

O feixe alaranjado cortava a sala, atravessando o calor nauseante.

Ergueu-se — pele colada ao poliéster barato — e enfiou o telemóvel no bolso. A ânsia pesava-lhe o estômago, uma refeição indigesta.

Vá, só uma enquanto espero…

Aproximou-se do frigorífico — do zumbido eletrónico — e puxou a maçaneta, antecipando a descarga elétrica que nunca chegou. Agarrou numa garrafa aleatória, raspou-a contra a madeira lascada do balcão e abocanhou o gargalo.

Esperou.

Gole a gole, olhos postos na guilhotina laranja que clivava a porta, devagar.

Um, dois, talvez três quartos de hora.

Perdeu-se, o imbecil.

Bateu com o punho na bancada, três garrafas tilintaram. O telefone sacudiu na mão. Sorveu o resto da cerveja de uma assentada e saiu.

Um BMW negro aguardava por si, de porta traseira aberta.

Entrou, batendo-a, e enfrentou a nuca do motorista.

— Não lhe faz falta o dinheiro, hum?

A respiração pausada do homem moreno foi a única resposta.

Encostou-se para trás, praguejando contra dentes cerrados.

— Rua do Largo, 23.

O arranque foi imediato.

Olhou pela janela — os azulejos aceleravam em sentido oposto — e afundou-se contra o assento.

Teria de ser sincero.

Soá-lo, pelo menos.

Juntou as mãos sobre o colo.

Na rua, as casas pintavam-se todas de igual sob o vulto da noite.

Teria de o remendar. Não passava mais um minuto naquela pocilga.

Notou uma fachada estranha. Os olhos foram demasiado lentos para a analisar. Não conhecia o atalho.

Sentiu o pé baquetear — som abafado contra o tapete.

Teria de ser magnânimo.

Recuperar o que é meu.

Apercebeu-se de que rodava algo entre os dedos.  A chave. Tirara-a do bolso sem pensar. Mesmo no negrume do habitáculo, via os reflexos dourados.

Sinceridade e frieza.

Era noite cerrada, quando olhou novamente pela janela.  Ainda assim, deveria reconhecer as silhuetas.

— Está perdido, amigo?

Recebeu a mesma resposta que antes. Cerrou o punho em torno do objeto metálico — dentes cravaram-se-lhe na palma.

— Não me ouve? Perguntei se está perdido.

Levou uma mão ao teto e, com um clique, a luz preencheu o pequeno espaço. Viu a nuca pálida — entre o banco e o apoio para a cabeça — e algo mais. O ar solidificou-se nos pulmões.

Era um buraco de fechadura. A tatuagem mais realista que alguma vez vira — tinta tão negra que não parecia tinta de todo…

Foi a travagem súbita que o arrancou do devaneio. Olhou pelo para-brisa, para a entrada — e a pele começou a crepitar.

Sinceridade e frieza!

Respirou fundo. Relaxou os punhos, sentindo dentes desalojarem-se da palma.

Frieza.

Acenou e, ao agarrar na maçaneta, foi atravessado por um choque elétrico. Retraiu-se com um gemido.

— O que…?

Só então se apercebeu de que o motorista tinha saído do carro. A porta dianteira fechou-se com um clique, mergulhando-o de novo em tréguas.

Puxou de novo a maçaneta. Não houve dor.

E a porta não se moveu.

— Ei!

Olhou através do vidro. Seguiu o motorista com os olhos.

E só então viu.

O semblante.

O andar arrogante.

O casaco desbotado.

Viu-se a si mesmo, trepar as escadas e tocar à porta. A silhueta longilínea dela surgiu na passagem, destacada contra a luz vermelha do hall.

Viu-se segui-la — punhos cerrados, ombros tensos — para dentro de casa.

Enquanto ele — enclausurado, intenções esquecidas — apenas podia gritar.

VI - O Carro | Tarot Literário, microcontos de terror

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