Logo
  • O Tarot Literário
  • Ver o baralho
  • Os Romances
  • Os Contos
  • A Autora
  • Contactos
VI - Enamorados

VI - Enamorados

Químicos permeavam o ar húmido e quente. Abanou a cabeça e ponderou no programa a usar. Realidade desagradável, ter de tratar da própria roupa, arcar com necessidades tão banais, enquanto o mundo aguardava para lá da janela embaciada.

Escolheu uma temperatura alta. Sabia bem o que se entranhava nos tecidos que usava contra a pele. A independência custava-lhe no corpo, suor destilado em troca de sustento. Miserável população a que pertencia agora.

Ruído mecânico antecedeu a aceleração centrífuga. Através do vidro circular viu as poucas peças tombarem umas sobre as outras.

Sentou-se, olhos presos nas mãos tingidas. Que componente da ferrugem se impregnava nos poros e resistia à água quente.

Quente…

Riu, com secura, passou dedos sujos por cabelo conspurcado.

Água morna. Aquecida no pequeno fogareiro que mantinha, ilegal, no quarto. O salário mal lhe dava para dividir a eletricidade, quanto mais o luxo de um esquentador.

Um som metálico fê-lo girar em direção a uma cascata de cabelo louro. Uma mulher curvara-se ao seu lado, dedos esguios a caçar moedas escuras.

Ajoelhou-se e encurralou uns quantos círculos errantes.

— Vamos ter de as contar, este chão tem bolsos.

Olhos claros ergueram-se para os dele, alarmados. Pelo gesto ou pelas palavras?

— Estupidez minha, não fechei a bolsa como deve de ser.

O peito dele descompassou-se. Havia algo de errado naquela inocência — feições demasiado delicadas, voz demasiado doce. Uma miúda — no corpo de uma mulher.

Clareou a garganta.

— Receio que uma já esteja perdida. Esta secadora surripiou-me dois euros na semana passada.

Ela riu, um som curto que atravessou a cortina de cabelo dourado. Ainda perseguia moedas que se esgueiravam para o outro lado.

Quando se voltou para ele, foi de sobrolho franzido. Como se procurasse algo nas suas memórias. Inspirou fundo, sacudiu a cabeça e a leveza regressou.

— Máquinas somíticas. Recusam-se a dar troco e ainda se apoderam do pouco que trazemos. A mim nunca há de conquistar a tecnologia.

Ele ouviu um som estranho sair de si mesmo — uma exclamação arejada e isenta de acidez. Afastou o cabelo escuro do rosto e notou o rasto verde que o seguiu. Sentiu algo mais familiar: uma onda de calor a acometê-lo por inteiro antes de se concentrar num único ponto.

Perscrutou o chão, já livre de moedas. Levantou-se e estendeu uma mão para a ajudar a fazer o mesmo.

Ela ia agarrá-la, mas os dedos estremeceram e afastaram-se. O sobressalto estava de volta ao rosto delicado. Sem que ele tivesse tempo de reagir, entorpecido pela ameaça de rejeição, já a expressão se eclipsara e uma mão suave encaixara na sua.

Puxou-a para cima, apreciando-lhe a graciosidade, e depositou as moedas que reunira sobre a palma erguida onde outras tantas aguardavam. Exceto que uma não era moeda de todo — dourada e assimétrica, entre metal opaco. Quente, mesmo sem lhe tocar. Familiar, mesmo nunca a tendo visto…

Ela fechou a mão e a reticência que o invadira dissipou-se.

— Enfim, nenhuma fortuna perdida. Ainda consigo lavar roupa para amanhã.

— Lamentável. Estava prestes a oferecer uma das minhas t-shirts, à espera de ser um cavalheiro.

O sorriso dela — batom rosado a delinear dentes perfeitos — foi logo substituído por um esgar. Levou dois dedos ao lábio inferior e pareceu assustar-se com o próprio toque. Afastou-os, percorrendo-os com o polegar, como se espalhasse algo contra a pele. Medo tingiu as íris verdes.

O que…?

— Hoje já me ajudaste bastante, obrigada. — A voz vacilou. Prendeu uma madeixa de ouro por trás da orelha, com dedos ainda trémulos. — Bem… vou pôr a máquina a trabalhar.

Ele hesitou — desconfortável, confuso, preenchido por uma ânsia inexplicável que lhe punha o cabelo em riste. Mas algo nela lhe ficara entranhado, tal como aquela maldita ferrugem, e ele não ia deixar mais uma fome por saciar.

Que se foda!

— Olha, quando terminarmos, queres ir tomar um café aqui do lado?

Ela assentiu, com um sorriso.

E foi a vez dele se sobressaltar. Uma dor aguda explodiu-lhe na mão direita, nos nós dos dedos, como se tivesse socado uma parede. Elevou-a ao nível dos olhos, passou as pontas dos dedos pela pele intacta.

Não havia lá nada.

Não ainda.

VI - Os enamorados | Tarot Literário, microcontos de terror

Vira a próxima cartaVII - Carro

Regressa O BaralhoO Baralho

Logo

O Tarot Literário

O Baralho

Os Romances

Os Contos

A Autora

Contactos

InstagramTiktokSpotify