Tep-tep-tep.
Uma da manhã.
Passos leves pontilhavam o corredor a desaguar no quarto dela. Virou-se para o lado, pestanas coladas pela resina do sono, e levantou o lençol.
O corpo da filha mal deformou o colchão, ossos finos embrulhados em pouco mais que pele quente e suave.
Abraçou a criança, encostando-a ao próprio tronco, e afundou o nariz entre os caracóis dourados, empalidecidos pelo luar. Inspirou fundo para prender aquele instante — aquele mundo almofadado, saturado pelo odor a maçã verde — dentro de si.
O dia seguinte reivindicou-a, ainda o Sol não havia nascido.
Levantou-se, enregelada apesar das várias camadas de roupa, e claudicou até ao quarto de banho.
Debruçada sobre o lavatório, mergulhou as mãos em água morna antes de flectir e estender os dedos com cuidado, devolvendo-lhes vivacidade sem ofender as articulações adormecidas.
Lavou-se e vestiu-se sem levantar os olhos para o espelho rectangular.
Dispensava fitar as meias-luas violáceas que sublinhavam os seus olhos e jamais se esbatiam, por muitas horas que dormisse.
Tal como a falha na sobrancelha esquerda, que jamais se corrigiria, por muitos mais anos que vivesse.
Tampouco desejava enfrentar o calendário, pregado por cima da mesa-de-cabeceira, e a indiferença papirácea com que anunciava a data.
Fez o pequeno-almoço. Recheou a mala.
Susteve a respiração, fazendo-se inflexível, ao preparar a filha; ao lembrá-la, no último momento possível, do dia que chegara; ao atá-la ao carro, com o cinto de segurança rijo; ao vê-la ser arrastada para o interior da escola, a bramir e esbracejar, impermeável a qualquer despedida.
Assumiu o turno da manhã. Deixou uma carcaça produtiva no seu posto enquanto vivia o infindável tormento de não saber.
Quando regressou à casa vazia, foi deitar-se entre os lençóis. Eles não retinham calor como antes.
Virou-se para um lado, voltou-se para o outro.
Passou horas semidesperta, à espera de ouvir o tep-tep-tep de pequenos pés a percorrer o caminho de madeira.
Estendeu um braço — nada encontrou.
Abraçou-se a si mesma, enganando-se de que a filha sentiria o gesto, onde quer que o pai a tivesse.
Passou-se um dia, dois, sem que saísse daquele abraço de que fazia amuleto, desesperada por proteger a inocência que lhe escapava por entre os dedos com cada fim-de-semana roubado.
Domingo.
A hora de entrega chegou e partiu. Não se mexeu. Contou os minutos no relógio — o ponteiro delgado deslizava com uma languidez obscena.
Levantou-se ao fim de duas horas. Aguardou vinte e sete minutos sentada nas escadas do prédio.
Já o sol se punha, vermelho como um corte sangrante no horizonte, quando o carro se materializou ao fundo da rua.
Trancou os braços em torno da filha.
Precisou de mais força do que habitual para a levar até dentro. Cuidou-a, esforçou-se por fazê-la sorrir, mas os cantos dos lábios, tal como os olhos escurecidos, logo eram atraídos pela gravidade.
O livro de histórias ficou fechado, a cabeça loura tombara já inconsciente sobre a almofada.
Preparou-se à luz da Lua, evitando o espelho e as crescentes marcas da sua exaustão, e foi deitar-se.
Despertou à uma da manhã. Silêncio. O colchão pendia para o lado. Voltou-se.
Encontrou um corpo sólido e gélido. Abraçou-o, puxou-o para si. Afundou o nariz no cabelo crespo e inspirou.
Uma lágrima escapou-lhe dos olhos cerrados.
Sem afrouxar o abraço, rezou que não fosse ela; que o relógio mentisse; que o som de passos ainda a viesse despertar daquele inferno.
Mas nada.
Apenas silêncio.
E o cheiro a terra.

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