Acordou tarde, o dia já escorria pelas paredes do quarto — tinta ocre tingida pela manhã ictérica. Aturdida, passou uma mão pela cara e gemeu ao toque da palma húmida e salgada nos lábios febris. Agarrou nos limites do lençol, cobriu a cabeça com o tecido áspero e roubou um segundo de inexistência.
Depois outro.
E outro.
Até o despertador estridente a arrancar da cama.
Entrou para o quarto de banho e fechou a porta ao sol, embrulhando-se na escuridão, o último resquício de paz que lhe restava.
Aliviou-se.
Lavou-se.
Vestiu-se.
Desviou a bolsa de cosméticos, coberta por uma leve camada de pó, atou o cabelo ao nível da nuca. Já de mão pousada na maçaneta, inspirou fundo — e sorriu.
Sentiu um repuxar puntiforme culminar em algo a ceder sob a tensão dos músculos faciais. Dor irradiou-lhe da boca às maçãs do rosto, deixando um rasto metálico atrás de si.
Abandonou o quarto.
O apartamento.
O prédio.
Desviando-se da luz fulgorosa do Sol, atravessou o bairro com passos económicos e aguardou de respiração sustida entre as pessoas aglomeradas junto à paragem de autocarro.
— Radiante como sempre.
— Gosto muito desse tom de vermelho, é um batom novo?
Deixou que o sorriso respondesse por si e escapou para o interior do veículo que se deteve junto ao passeio, e do qual emergiu ao fim de minutos, seguida pelo odor a suor e perfume barato, em frente a um edifício alto e indistinguível dos que o ladeavam. Atravessou as portas de vidro, escudando os olhos, rumo ao seu posto de trabalho.
Foi diligente
Metódica.
Minuciosa.
Ainda assim, terminou as tarefas em metade do dia de trabalho. Reviu tudo o que havia feito. Fingiu-se ocupada com todos e quaisquer afazeres. Desejou-se invisível ao vê-lo passar, evitou os olhos aguçados que varriam o piso.
Arreceou-se de um convite que não chegou.
Seria possível que não a visse?
Passaram-se uma, duas horas, sem que a perturbassem. O Sol afundava-se no arco azulado do dia, um langoroso pêndulo de ouro.
Estava quase na hora. Faltavam minutos. Segundos.
O telefone grasnou. Pelo altifalante, uma voz granulada exigiu que subisse ao sétimo piso.
Roubada de nocicepção, ela testemunhou-se levantar e encaminhar o corpo macilento para o elevador mais próximo. Olhares seguiram-na em direcção às portas metálicas.
— Estás bem?
— Passa-se alguma coisa com a tua cara.
Elevou os cantos da boca com os dedos, gravando uma dor surda no rosto e uma impressão digital vermelha no botão marcado com um “7”.
No novo piso, percorreu o chão acolchoado com passos mudos. Uma porta de madeira abriu-se de rompante.
— Entra.
Ocupou o lugar de frente para a secretária. Anotou uma lista interminável com meia dúzia de itens.
Foi eficiente.
Silenciosa.
Profissional.
Sem desviar os olhos do papel, sentiu-o acercar-se. A caneta estremeceu, rabiscando o papel imaculado.
— Esse batom fica-te bem.
Ela viu-o estender dois dedos ao seu lábio inferior e estudar o líquido escarlate antes de o provar.
Um esgar escapou-lhe das rédeas.
— Que se passa contigo?
Empurrou-a contra as costas da cadeira, mãos cravadas em torno do pescoço, e alinhou a bacia com o rosto dela.
— Uma menina bonita como tu… devias ser mais sorridente.
Cegada por água salgada, sentiu os cantos dos seus lábios serem repuxados em sentidos opostos — com o som de lençóis velhos a rasgar, uma dor lancinante traçou-a da boca aos ouvidos.
O sabor metálico cobriu-lhe a língua de novo. Ela engoliu-o, desimpedindo a passagem.
Foi eficiente.
Silenciosa.
Profissional.
Chegou tarde a casa. A noite já escorria pelos prédios longínquos — fachadas vulgares maquilhadas de azul índigo.
Entrou no quarto de banho, reticente em ligar a luz. A lâmpada despida acendeu-se com um zumbido eléctrico. No espelho, um sorriso, rasgado de orelha a orelha, cobria-lhe a metade inferior do rosto de vermelho.
Tentou relaxar a expressão — foi preciso desfazê-la com as pontas dos dedos. Tacteou a mármore fria em busca de agulha e linha, e pôs mãos à obra.
Regressa O Baralho